sábado, 15 de junho de 2013

2º Viagem


           Conheci Jorge numa viagem pelas águas de Portugal, o meu país, a minha origem. Embarquei em Viana do Castelo, o ponto mais a norte e dai percorremos até ao ponto mais a sul. Parava-mos em cada porto e Jorge, que tinha embarcado nesta viajem também, costumava esperar por mim.
Avistei-o de longe e logo reparei que os meus cabelos louros e grandes olhos azuis já tinham chamado a sua atenção. Sentia-me de novo com quinze anos a viver os namoriscos despreocupados da altura. O seu peito musculado, marcado por um bronzeado dourado que quase que fazia refletir o sol captou os meus olhos. Eu estava deitada nas espreguiçadeiras junto á piscina, com um fato de banho preto, sem alças, e um laço em tons de azul que unia uma ponta á outra nas costas. Reparei que como eu o seu olhar estava pousado em mim, um olhar sedutor e o seu cabelo moreno ao vento eram bastante convidativos. Aproximou-se e o meu coração batia.
‘Posso-me sentar?’ – Perguntou.
‘Que resposta óbvia!’ pensei enquanto respondia que sim.
Assim que aceitei a conversa desenrolou-se e as palavras fluíam. Ele era um jovem alto e atraente. Devia de estar na casa dos trinta e eu tinha os meus, pouco vividos, vinte e cinco anos, altura em que me aventurei e decidi conhecer mais que a minha pequena ‘aldeia’, mais que o meu pequeno mundo.
Visitamos a bela cidade do Porto, primeira paragem e também a primeira troca de olhares, daqueles que deixam algo a desejar. Passeamos juntos, tomamos café, conversamos. ‘Que bela cidade’ disse, ‘quem diria que seria também tão propícia ao amor’, pensei.
Entre sorrisos e gargalhadas fiquei a conhecer um pouco mais sobre esta figura atraente, que à cerca de cinco anos tinha emigrado para França em busca de emprego, e lá se estabeleceu durante três anos. Falava francês fluentemente, e a sua cultura era incrível! Tinha decidido voltar, quem sabe para se apaixonar e constituir família, mas também para estar perto dos seus. 
Falamos durante horas a fio e o longo passeio passou a voar. Quando voltamos a embarcar ele sussurrou ao meu ouvido o número do quarto em que estava hospedado. 'Quarto 112', como me lembro da forma como proferia as palavras, juntando na mesma frase um toque sério, animado e sedutor.
Esperei alguma horas até pegar no telefone do quarto e pedir ligação para a quarto de Jorge. 
          'Bip, bip, bip, estou sim?' - Ouvia a sua voz abafada do outro lado da linha. 
          'Sou eu, a Margarida ...' - Respondi.


quarta-feira, 12 de junho de 2013

1º viagem

‘Três pessoas! Estão aqui mais três pessoas!’, gritavam os civis.
‘Ajudem-me por favor’, dizia o único moribundo que conseguia falar.
Estávamos no mês de Maio, que após os meses anteriores bastante chuvosos se começava a revelar iluminado e calmo. As árvores e as flores festejavam o sol e, de agradecimento, davam frutos e floresciam. O cantar dos pássaros no campo acalmava-me, a sua dança ao longe e as crianças divertidas que brincavam com as mais diversas e imaginativas coisas no caminho de terra batida que ligava todo um largo de casas tomavam lugar e ocupavam a minha alma.
Com os primeiros raios de sol, já os adolescentes saem á rua e enchem as praias, as famílias colocam a mesa na rua e comem todos juntos, a roupa é lavada e estendida sem preocupações e as meninas fazem grandes passeios chegando a casa com tantas flores quanto possível. Estes momentos, aqueles que ainda consigo visualizar das janelas de minha casa, repletos de todas as vivacidades da vida, são os únicos que para alem de me ocupar conseguiam fazer a minha alma sorrir…
À muito que a minha vida já se tinha tornado numa rotina. Acordava de manhã, lembrando-me sempre de quando o despertador era obrigado a tocar mais cedo, tomava o pequeno-almoço e sentava-me no pequeno sofá da minha sala a ver os programas da manhã que passavam na televisão. Nem sempre me lembrava de almoçar e da parte da tarde arranjava-me e obrigava o meu corpo a sair de casa. Perdi a conta das vezes em que, já meio vestida com a roupa ‘de sair’, voltava a sentar o meu corpo no sofá e permanecia sentada a olhar para a televisão. Sabia que precisava de sair de casa, que a minha saúde já não era de ferro, o que fazia com que precisasse de andar e assim exercitar os ossos, como tantas vezes o médico mandava, mas a alma doente, adormecida e quem sabe embriagada falava sempre mais alto.
            Apareciam como estranhas, as memórias que me assaltavam o sono. Vinham repletas de alegria mas deixavam um gosto amargo na boca, e marcavam a tristeza no coração. Tantos momentos de amor e ternura e agora tudo o que me resta é uma casa cheia de vazio, e três cadeiras dispostas como se nada tivesse acontecido… 
        À entrada de casa encontra-se um móvel de gavetas e uma pequena estante, molduras, um jarro de flores e pequenas velas dispostas de prateleira para prateleira decoram aquele espaço, que se abria num enorme corredor com vários quadros presos na parede. Um do campo, outro da cidade, outro nosso, e no entretanto escorre-me uma lágrima pelo rosto.

‘Feliz por ter acontecido, ou triste por ter acabado?’ – Questionava-me incessantemente.

O corredor abria-se de par em par para a cozinha, os dois quartos e a casa de banho. De um lado, todo ele era vidrado com vista para o jardim, e lá estavam novamente três cadeiras, dispostas lado a lado onde me costumava sentar, mais Jorge, o meu marido, e João, nosso amigo, a observar os nossos netos que brincavam alegremente.
‘Será uma anacronia continuar a chamar-lhe de meu marido, agora que não sou mais que uma mera viúva?’ – Neste momento a página que escrevia tornou-se como um corpo humano, inundado de água e repleto de vida.