‘Três
pessoas! Estão aqui mais três pessoas!’, gritavam os civis.
‘Ajudem-me
por favor’, dizia o único moribundo que conseguia falar.
…
Estávamos no mês de Maio, que após os meses
anteriores bastante chuvosos se começava a revelar iluminado e calmo. As árvores
e as flores festejavam o sol e, de agradecimento, davam frutos e floresciam. O
cantar dos pássaros no campo acalmava-me, a sua dança ao longe e as crianças
divertidas que brincavam com as mais diversas e imaginativas coisas no caminho
de terra batida que ligava todo um largo de casas tomavam lugar e ocupavam a
minha alma.
Com os primeiros raios de sol, já os
adolescentes saem á rua e enchem as praias, as famílias colocam a mesa na rua e
comem todos juntos, a roupa é lavada e estendida sem preocupações e as meninas
fazem grandes passeios chegando a casa com tantas flores quanto possível. Estes
momentos, aqueles que ainda consigo visualizar das janelas de minha casa, repletos
de todas as vivacidades da vida, são os únicos que para alem de me ocupar conseguiam
fazer a minha alma sorrir…
À muito que a minha vida já se tinha
tornado numa rotina. Acordava de manhã, lembrando-me sempre de quando o
despertador era obrigado a tocar mais cedo, tomava o pequeno-almoço e
sentava-me no pequeno sofá da minha sala a ver os programas da manhã que
passavam na televisão. Nem sempre me lembrava de almoçar e da parte da tarde
arranjava-me e obrigava o meu corpo a sair de casa. Perdi a conta das vezes em
que, já meio vestida com a roupa ‘de sair’, voltava a sentar o meu corpo no
sofá e permanecia sentada a olhar para a televisão. Sabia que precisava de sair
de casa, que a minha saúde já não era de ferro, o que fazia com que precisasse
de andar e assim exercitar os ossos, como tantas vezes o médico mandava, mas a
alma doente, adormecida e quem sabe embriagada falava sempre mais alto.
Apareciam como estranhas, as
memórias que me assaltavam o sono. Vinham repletas de alegria mas deixavam um
gosto amargo na boca, e marcavam a tristeza no coração. Tantos momentos de amor
e ternura e agora tudo o que me resta é uma casa cheia de vazio, e três
cadeiras dispostas como se nada tivesse acontecido…
À entrada de casa encontra-se um móvel de gavetas e uma pequena estante, molduras, um jarro de flores e pequenas velas dispostas de prateleira para prateleira decoram aquele espaço, que se abria num enorme corredor com vários quadros presos na parede. Um do campo, outro da cidade, outro nosso, e no entretanto escorre-me uma lágrima pelo rosto.
À entrada de casa encontra-se um móvel de gavetas e uma pequena estante, molduras, um jarro de flores e pequenas velas dispostas de prateleira para prateleira decoram aquele espaço, que se abria num enorme corredor com vários quadros presos na parede. Um do campo, outro da cidade, outro nosso, e no entretanto escorre-me uma lágrima pelo rosto.
‘Feliz por ter acontecido, ou triste por ter acabado?’ – Questionava-me incessantemente.
O corredor abria-se de par em par para
a cozinha, os dois quartos e a casa de banho. De um lado, todo ele era vidrado
com vista para o jardim, e lá estavam novamente três cadeiras, dispostas lado a
lado onde me costumava sentar, mais Jorge, o meu marido, e João, nosso amigo, a
observar os nossos netos que brincavam alegremente.
‘Será uma anacronia continuar a
chamar-lhe de meu marido, agora que não sou mais que uma mera viúva?’ – Neste momento
a página que escrevia tornou-se como um corpo humano, inundado de água e
repleto de vida.
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