quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Irei amar-te eternamente, Avô

   Está um conjunto de pessoas reunido em frente à casa mortuária. A noticia foi recebida à relativamente pouco tempo, mas como se diz as más correm sempre depressa.
   Estou mais afastado a um canto, não sinto o vento, não oiço o murmurar, não sinto as lágrimas que me correm pelo rosto... Será que existem?
   Naturalmente este é o momento que todos receamos, aquele de que nos tentamos afastar o máximo possível, mas aquele que é o mais certo desde o momento que vimos ao mundo.
   Observo um conjunto de pessoas mais à minha frente e no meio de todas aquelas palavras mal proferidas, ou muito provavelmente proferidas na perfeição e o problema sou realmente eu, que não oiço, que já nem sinto, que já nem falo, revela-se o único conjunto de palavras ao qual estou apto de ouvir:
 '- Mas e então tudo bem?'
   Continuo em frente à casa mortuária ou terei finalmente acordado do pesadelo? É que enquanto eu me encontro aqui a velar o corpo de uma das pessoas que me eram mais importantes um grupo de pessoas interrogasse, para além das banalidades, de como está o tempo, de como está o mundo e de como eles próprios estão. Eu não estou bem, e penso que se alguém estivesse o local onde estariam reunidos não seria este com toda a certeza.
   Será educação, será egoísmo ou somente ironia? 
   Sinceramente só me restará a duvida, e quando à pouco pensava que este momento era o mais certo em toda a nossa vida, agora reflito e chego à conclusão que é também o que mais gera incógnita.
   Não o queria dizer ou sequer pensar, com um medo exorbitante de que se tornasse real, ou pelo menos mais ainda, mas acabo por deitar cá para fora:
    - Ainda agora foste e já sinto a tua falta. 
       Irei amar-te eternamente, Avô. - E ai chorei, e senti realmente o choro. Todo o mundo desabou. Realmente tinha razão, tornou-se real, e completamente irreversível.

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Humildade, palavra de ordem

Há um dia em que tudo muda, a flor murcha para que outra possa florescer, o sol dá lugar à chuva, a primavera dá lugar ao verão, o verão ao outono, o outono ao inverno e por ai adiante. O que eu quero dizer é que a vida não para. Certamente hoje alguém morrerá, mas alguém irá nascer também. Um divorcio será assinado mas uma cerimonia de casamento estará a ser celebrada. Quando menos esperamos tropeçámos, mas quando menos esperarmos iremos dar também um grande passo em frente em busca do nosso sonho. 
Ninguém sabe ao certo quantas vezes irás ser deixado pendurado, quantas vezes o gelado cairá redondamente no chão, redondamente na blusa ou redondamente na boca, na tua e do teu amor, um gelado partilhado? Sim, quem sabe.
O que eu quero dizer é que hoje a tua cabeça está em baixo, o teu sorriso desapareceu e o teu coração está tão despedaçado que dificilmente saberás qual será o pedaço inicial desse enorme puzzle, mas ninguém saberá se amanha uma mão será esticada na tua direcção. 
Lembra-te, nenhum pedido de socorro é enviado em vão, mas nenhuma acção arrogante será recompensada. 
Humildade, palavra de ordem.

'Seja humilde, pois, até o sol com toda a sua grandeza se põe e deixa a lua brilhar.'
Bob Marley

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Junho, 15

-Olha para trás. O que vês?
Parece apenas um círculo onde todos andamos ás voltas e mais voltas para encontrarmos um rumo, um sentido, e nos esquecemos que é somente mais um círculo dentro de tantos outros e que por mais que tentemos nunca conseguiremos encontrar um canto para nos acomodarmos. Porque é somente mais um círculo.
O círculo da vida, o círculo da existência. 
Por mais voltas que dês não deixara de ser um círculo e quando quiseres alterar a tua jornada a única coisa que te restará será apenas uma lima para tentares limar os lados. Mas não te esqueças, o que és e o que foste foi construído à volta desse mesmo círculo, queres alterar totalmente aquilo que te criou, ou apenas radicalizar o conceito de círculo para algo melhor?

Março, 21

Todas as noites, antes de dormir, um turbilhão de pensamentos invade a minha mente. Sinto-me melancólica, sinto-me sozinha e, ao mesmo tempo, sinto-me estranhamente romântica. Sei que estou apaixonada quando no meio de pensamentos desiludidos surge o seu rosto iludido pela saudade. Iludido por um transbordar de amor, como um copo cheio de água. Um amor tão transparente e ao mesmo tempo tão quente. Como um esquentador aceso, o meu copo que já não bastava cheio, transborda agora de amor fervendo.

domingo, 20 de outubro de 2013

Outubro 2012

Pensa num sitio diferente, um mundo onde simplesmente tudo esteja do avesso, um local onde sejam as moscas que assassinem os pobres Humanos, enormes bichos de olhos esbugalhados a eliminar pequenos intrusos, humanos que quem sabe apenas as aborrecem à procura de um pouco de comida, uma migalha de pão, um bago de arroz… Soa bem? Parece bonito na tua imaginação? Se calhar, em breves momentos de raciocínio, estas inofensivas moscas discirnam a desgraça que está prestes a acontecer-lhes, provavelmente para apenas poder levar um pouco de alimento aos filhos que as esperam. Agora pensa novamente nesse lugar obscuro, pensa na tua família, num sitio potencialmente seguro à espera da sua heroína que por minutos saiu para lhes trazer mantimentos, pensa que ela não voltará mais. Sentis-te a dor?

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Sem titulo, como a vida

Ultimamente as palavras custam a sair, já nada flui como antigamente. E eu falo da escrita, falo da fala, falo da vida. Falo de tudo um pouco, de tudo no geral. Falo daquilo que me toca, do que me choca e do que não me deixa. Daquilo que me sufoca e novamente do que me toca. Porque se é importante tocar-te-á de certeza, ainda que no mais ínfimo do teu ser tu te mintas jurando não te preocupar.
Sinceramente, eu própria já não sei o que é o sincero. Tento olhar-me ao espelho e imagino a mulher de sucesso que pretendo ser. Tantos planos para o futuro e um desejo infindável de os realizar, mas se o futuro começa no presente, e o presente é agora, porque é que me falta a força para batalhar no presente para um futuro melhor?
Sei que disse que já nada flui-a, na esperança que esta fosse a vez em que tudo se concertaria, mas se novamente o reflexo no espelho soa a estranho, o que serão palavras do que mais que um velho cheiro?

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Running away

         Quantas vezes pensas-te em fugir? Quantas vezes agarras-te numa mala e começas-te a colocar roupa à toa? Quantas vezes com a chave de casa na mão pensas-te na tua mãe desesperada à tua procura e então voltas-te a colocar a roupa na gaveta e a mala no armário? Eu falarei sem voz por todos aqueles que já quiseram fugir do mundo, que a única coisa que realmente queremos e ser encontrados, é sentir-mos que a nossa falta é sentida, é chegarmos e sentirmos o abraço molhado e as palavras roucas que nos são sussurram ao ouvido: nunca mais o faças, pelo menos não sem mim.
         Eu só queria fugir. Não me atirem à cara que estou a fugir dos problemas, porque eles não me vão deixar ir sozinha; não me digam que não vale a pena, porque não sabem o quão horrível é não sabermos se vamos realmente ser sentidos; mas também não me digam que vou ficar melhor, porque muito provavelmente não vou quando vir que é o carro da minha mãe que me encontra e não o teu...
         Sim, não é o melhor remédio, nem sequer chega a ser remédio. Sim, não sei se resultará, ou tão pouco se o conseguirei fazer... Mas, no meio de tantos 'mas', de tantos 'e se?' e de tantos 'porquês' fugir colocaria a minha cabeça no sitio. Porque quando me perguntam o que vou fazer eu nunca respondo com total sinceridade, porque no momento em que eu disser que desaparecer é o meu maior desejo tu não me vais entender e vais gritar comigo e 'chamar-me à terra' pensando que me estás ajudar a não cometer uma loucura; ou então vais-te simplesmente afastar, porque ninguém quer alguém que goste de fugir.
         Porque até ao momento em que alguém seja capaz de entender que o gosto da fuga não é só estarmos sozinhos mas sim sermos encontrados, eu nunca poderei ligar-te ás tantas da madrugada a perguntar se foges comigo.

sábado, 17 de agosto de 2013

Doze

          Podes ir embora, vai deixa o barco nas minhas mãos. Deixa-o a afundar-se e deixa-me a mim sozinha, sem forças para o segurar e a cair todos os dias mais um bocadinho apenas para o conseguir manter mais uns segundos à tona da água. Vai embora sem olhar para trás, vai sem sequer te lembrares de todos os bons momentos, de todos os carinhos e de todos os segredos. Vai e deixa-me aqui, só não me peças que vá embora também, porque enquanto o barco não cair por completo as minhas forças não cessaram completamente também. Porque por mais que diga que já não consigo, eu consigo sempre. 
          Um dia sussurraram-me ao ouvido que quando o amor é muito tudo ultrapassa, e ainda acrescentaram que o passado quando é importante mexe sempre com o futuro. Por isso não me digas para ir sem olhar para trás, tal como tu estás a fazer, porque eu estou pronta para juntar todas as pontas soltas e ainda aperfeiçoá-las com um belo laço. Não me perguntes porque nem tão pouco me peças para desaparecer, deixa a vontade aparecer, deixa a tua cabeça pensar em mim e vais ver o quanto tu também queres que eu não vá embora. 

segunda-feira, 22 de julho de 2013

Acima de tudo, o amor

Ainda que eu falasse línguas,
as dos homens e dos anjos,
se não tivesse amor,
seria como sino ruidoso
ou como címbalo estridente.

Ainda que tivesse o dom
da profecia,
o conhecimento de todos
os mistérios e de toda a ciência;
ainda que tivesse toda a fé,
a ponto de transportar montanhas,
se não tivesse amor, nada seria.

Ainda que eu distribuísse
todos os meus bens aos famintos,
ainda que entregasse
o meu corpo às chamas,
se não tivesse amor,
nada disso me adiantaria.
134 O amor é paciente,
o amor é prestativo;
não é invejoso, não se ostenta,
não se incha de orgulho.

Nada faz de inconveniente,
não procura o seu próprio interesse, não se
irrita, não guarda rancor.

Não se alegra com a injustiça,
mas regozija-se com a verdade.

Tudo desculpa, tudo crê,
tudo espera, tudo suporta.

O amor jamais passará.
As profecias desaparecerão,
as línguas cessarão,
a ciência também desaparecerá.

Pois o nosso conhecimento
é limitado;
limitada é também a nossa profecia.

Mas, quando vier a perfeição,
desaparecerá o que é limitado.

Quando eu era criança,
falava como criança,
pensava como criança,
raciocinava como criança.
Depois que me tornei adulto,
deixei o que era próprio de criança.

Agora vemos como em
espelho
e de maneira confusa;
mas depois veremos face a face.
Agora o meu conhecimento
é limitado,
mas depois conhecerei
como sou conhecido.

Agora, portanto,
permanecem estas três coisas:
a fé, a esperança e o amor.

A maior delas, porém, é o amor.


Epístola de São Paulo aos Coríntios

domingo, 21 de julho de 2013

Desejo vs Medo

         O desejo. O desejo da felicidade, do amor, do sucesso e da felicidade novamente porque é a mais abrangente. Eu desejo tudo isso e tudo mais e tu desejas igualmente porque é o natural do ser humano. Um dia eu escrevi assim: Nascemos num berço de vime, já pensando em possuir uma cama de ouro e acabamos por morar na casa da maldade, denominada por sociedade. Levamos diariamente connosco o desejo de felicidade e, espantosamente, é nos oferecida a inveja e crueldade deixando presente a duvida, direccionada não só ao próprio ser como também a Deus e à nossa fé, se o que nos rodeia será o problema social existente ou a cruz a que somos obrigados a carregar.  Problematicamente reflicto sobre o meu próximo e penso se serei eu que estou rodeada de bichos ou é apenas uma máscara pública vincada e bem delineada, resultante, de má vontade e uma enorme e séria falta de vivacidade e, quem sabe, amabilidade. Sinto-me então obrigada a chegar a uma conclusão que me coloca na posição de preferência aos animais.
           Hoje, alguns meses depois, eu penso igualmente mas de forma diferente. Se é que me faço entender...
          Prefiro os animais e sinceramente nem sempre gosto das pessoas, mas entendo o porque da existência de uma máscara pública, e a resposta é o Medo, a Insegurança. Porque para alem do desejo o ser humano foi construído sobre várias bases. Medo de falhar. Medo de ficar sozinho. Confiança. Desconfiança. Insegurança. Sorrisos. Gargalhadas. Carinho. E medo outra vez, mais que não seja de perder o sorriso, não dar uma gargalhada, não sentir carinho, não ter confiança, ser demasiado bom e não desconfiar, medo de ser. Arriscai, pois ninguém te tirará o que és, o que escolheres, o que fizeres e o que fores. Se falhares e sentires medo, pensa que o mundo não vai acabar. Se falhares e chorares, mostra só que és mais um lutador. 

         Vive a pensar no amanhã mas nunca sem esquecer o presente, e um dia quando te sussurrarem ao ouvido o quanto querem um abraço seguro dá esse abraço, nunca te esquecendo quando foste tu a pedi-lo, nunca te esquecendo quando tentavas vencer o medo com o desejo desse tal abraço...

sábado, 20 de julho de 2013

E se... ?

        Porque é que me mentias? Porque é que não cuidavas de mim como devias?
        Tantas perguntas e tão poucas respostas... Eu entreguei-te todo o meu amor e tu, que dizias amar-me também, apunhalaste-me pelas costas. Então e os planos, então e o sucesso, e os anos que íamos esperar para ficarmos juntos? Onde ficou tudo isso? Enrolado em mais uma mortalha enquanto de tentavas conformar que era eu que estava diferente?
        Eu amei-te de verdade, eu tinha quatorze anos e já te amava, eu tive quinze anos e amei-te e agora tenho dezasseis e odeio continuar a sentir a tua falta. Não acredites em quem te diz que aos quatorze não sabes o que é amar, nem aos quinze ou até mesmo aos dezassete, porque o amor não se esconde atrás de um número, ele floresce entre palavras e atitudes, entre carinhos e lembranças. Tantas memórias que enchem o meu peito, mas o que fazer quando tudo não passa de lembranças sem retorno?
        A melancolia assombra-me durante a noite, será culpa minha, ou tua, ou simplesmente foi nossa? De cabeça cheia mas de copo vazio lavo a cara, e desejo puder também mudar o passado, alterar o presente e intitular o futuro com um letreiro enorme onde se pode ler 'E Viveram Felizes Para Sempre'. 
       Mas em vez disso o copo vazio passa a cheio, e agora igualado com a minha cabeça sussurra-me estranhas e soltas palavras. 
       'O que és, o que foste, o que serás'. 
       Afinal até fazem algum sentido. Ficaram tantas feridas por sarar, e eu sou, ou pelo menos tento ser, a pomada para as sarar. Ficaram tantos 'eu amo-te' por dizer, mas isso é somente o que eu fui, uma simples rapariga de olhar inocente que se deixou embebedar pelas tuas palavras. Que engraçado escrever para ti como se lesses, que engraçado falar em bebida que não faço mais senão isso. Que saudades de esquecer, será que devo? Ficaram tantas frases por acabar,e tenho a certeza que será isso que irei ser: as respostas!
      Mas de que irei valei, do que é que a solução irá valer, se no final da noite o copo volta a vazio juntamente com a garrafa e aquilo que era solução passou novamente a problema que me assombra de duvidas... O que aconteceu ao 'para sempre'? O que aconteceu a todas as palavras que disses-te? O que aconteceu e o que acontecerá? E se..., e se...?
      Sento-me na cama e questiono a minha sanidade, será que o problema já tem solução ou  é somente a embriaguez a falar?
      Num momento de clareza eu proclamo: se o futuro está nas minhas mãos e se a vida é nada mais do que aquilo que eu fizer dela, eu digo-te que farei dela um dia feliz, todos os dias até ao fim. Sem ti, porque é assim que estou melhor. Mas ai o nivel de amor no meu sangue cresce, ele corre cada vez mais depressa nas minhas veias e a grande duvida nasce: Será? Porque tudo aquilo que eu quero é ser feliz, contigo ao meu lado.

quinta-feira, 18 de julho de 2013

3º viagem

      'Margarida! Que feliz por ouvir a sua voz'
      Escorreu-me uma gota de suor, não que estivesse um calor abrasador lá fora, mas porque o meu corpo irradiava paixão. Era o calor da paixão, e talvez o medo das respostas.
      A conversa desenrolou e Jorge convidou-me para jantar, palavras simples mas cheias de cavalheirismo que deixaram a minha cabeça numa revolução. 'O que irei vestir? O que devo calçar? Cabelo apanhado ou solto? Maquilhagem?' Apenas queria estar no meu melhor, sentir que quando Jorge olhasse para mim os seus olhos brilhassem, me achasse bonita e tudo aquilo que ele desejava. O sonho de qualquer mulher, e o meu também.
      Sentir que pertenço a algo e que sou a peça do puzzle que faltava é algo que já não sentia à muito, e foi isso mesmo que me fez fugir da minha pequena 'aldeia', que de aldeia não têm nada para os que me rodeavam mas que na minha cabeça é apenas um grão de areia em todo o mundo. Precisava de criar novos horizontes, conhecer novos lugares e criar novos sonhos, novas metas. E cá estou eu... A irradiar paixão, a sonhar novamente!
      Com um vestido por cima do joelho preto, com ornamentos dourados na única alça existente e o cabelo solto entrei num andar elegante, ajudado pelas sandálias altas dos mesmos tons dourados, no bar antes da sala de jantar. Senti de imediato o olhar de Jorge e de mais uns senhores por quem se fazia acompanhar pousarem e mim. O meu olhar jovem e inocente escondia a timidez que sentia e o medo. O medo de ser apenas uma brincadeira, de não saber tomar partido disso e ser eu a brincar. O medo de me magoar. Talvez os meus vinte e cinco anos não sejam assim tão pouco vividos, mas eu coloco o medo atrás das costas e dou mais um passo. Olho nos seus olhos e confiante digo:
       'Olá Jorge'
       'Margarida, boa noite. Estás linda!' Disse sorrindo.
       'Obrigada' Sorri timida...

sábado, 15 de junho de 2013

2º Viagem


           Conheci Jorge numa viagem pelas águas de Portugal, o meu país, a minha origem. Embarquei em Viana do Castelo, o ponto mais a norte e dai percorremos até ao ponto mais a sul. Parava-mos em cada porto e Jorge, que tinha embarcado nesta viajem também, costumava esperar por mim.
Avistei-o de longe e logo reparei que os meus cabelos louros e grandes olhos azuis já tinham chamado a sua atenção. Sentia-me de novo com quinze anos a viver os namoriscos despreocupados da altura. O seu peito musculado, marcado por um bronzeado dourado que quase que fazia refletir o sol captou os meus olhos. Eu estava deitada nas espreguiçadeiras junto á piscina, com um fato de banho preto, sem alças, e um laço em tons de azul que unia uma ponta á outra nas costas. Reparei que como eu o seu olhar estava pousado em mim, um olhar sedutor e o seu cabelo moreno ao vento eram bastante convidativos. Aproximou-se e o meu coração batia.
‘Posso-me sentar?’ – Perguntou.
‘Que resposta óbvia!’ pensei enquanto respondia que sim.
Assim que aceitei a conversa desenrolou-se e as palavras fluíam. Ele era um jovem alto e atraente. Devia de estar na casa dos trinta e eu tinha os meus, pouco vividos, vinte e cinco anos, altura em que me aventurei e decidi conhecer mais que a minha pequena ‘aldeia’, mais que o meu pequeno mundo.
Visitamos a bela cidade do Porto, primeira paragem e também a primeira troca de olhares, daqueles que deixam algo a desejar. Passeamos juntos, tomamos café, conversamos. ‘Que bela cidade’ disse, ‘quem diria que seria também tão propícia ao amor’, pensei.
Entre sorrisos e gargalhadas fiquei a conhecer um pouco mais sobre esta figura atraente, que à cerca de cinco anos tinha emigrado para França em busca de emprego, e lá se estabeleceu durante três anos. Falava francês fluentemente, e a sua cultura era incrível! Tinha decidido voltar, quem sabe para se apaixonar e constituir família, mas também para estar perto dos seus. 
Falamos durante horas a fio e o longo passeio passou a voar. Quando voltamos a embarcar ele sussurrou ao meu ouvido o número do quarto em que estava hospedado. 'Quarto 112', como me lembro da forma como proferia as palavras, juntando na mesma frase um toque sério, animado e sedutor.
Esperei alguma horas até pegar no telefone do quarto e pedir ligação para a quarto de Jorge. 
          'Bip, bip, bip, estou sim?' - Ouvia a sua voz abafada do outro lado da linha. 
          'Sou eu, a Margarida ...' - Respondi.


quarta-feira, 12 de junho de 2013

1º viagem

‘Três pessoas! Estão aqui mais três pessoas!’, gritavam os civis.
‘Ajudem-me por favor’, dizia o único moribundo que conseguia falar.
Estávamos no mês de Maio, que após os meses anteriores bastante chuvosos se começava a revelar iluminado e calmo. As árvores e as flores festejavam o sol e, de agradecimento, davam frutos e floresciam. O cantar dos pássaros no campo acalmava-me, a sua dança ao longe e as crianças divertidas que brincavam com as mais diversas e imaginativas coisas no caminho de terra batida que ligava todo um largo de casas tomavam lugar e ocupavam a minha alma.
Com os primeiros raios de sol, já os adolescentes saem á rua e enchem as praias, as famílias colocam a mesa na rua e comem todos juntos, a roupa é lavada e estendida sem preocupações e as meninas fazem grandes passeios chegando a casa com tantas flores quanto possível. Estes momentos, aqueles que ainda consigo visualizar das janelas de minha casa, repletos de todas as vivacidades da vida, são os únicos que para alem de me ocupar conseguiam fazer a minha alma sorrir…
À muito que a minha vida já se tinha tornado numa rotina. Acordava de manhã, lembrando-me sempre de quando o despertador era obrigado a tocar mais cedo, tomava o pequeno-almoço e sentava-me no pequeno sofá da minha sala a ver os programas da manhã que passavam na televisão. Nem sempre me lembrava de almoçar e da parte da tarde arranjava-me e obrigava o meu corpo a sair de casa. Perdi a conta das vezes em que, já meio vestida com a roupa ‘de sair’, voltava a sentar o meu corpo no sofá e permanecia sentada a olhar para a televisão. Sabia que precisava de sair de casa, que a minha saúde já não era de ferro, o que fazia com que precisasse de andar e assim exercitar os ossos, como tantas vezes o médico mandava, mas a alma doente, adormecida e quem sabe embriagada falava sempre mais alto.
            Apareciam como estranhas, as memórias que me assaltavam o sono. Vinham repletas de alegria mas deixavam um gosto amargo na boca, e marcavam a tristeza no coração. Tantos momentos de amor e ternura e agora tudo o que me resta é uma casa cheia de vazio, e três cadeiras dispostas como se nada tivesse acontecido… 
        À entrada de casa encontra-se um móvel de gavetas e uma pequena estante, molduras, um jarro de flores e pequenas velas dispostas de prateleira para prateleira decoram aquele espaço, que se abria num enorme corredor com vários quadros presos na parede. Um do campo, outro da cidade, outro nosso, e no entretanto escorre-me uma lágrima pelo rosto.

‘Feliz por ter acontecido, ou triste por ter acabado?’ – Questionava-me incessantemente.

O corredor abria-se de par em par para a cozinha, os dois quartos e a casa de banho. De um lado, todo ele era vidrado com vista para o jardim, e lá estavam novamente três cadeiras, dispostas lado a lado onde me costumava sentar, mais Jorge, o meu marido, e João, nosso amigo, a observar os nossos netos que brincavam alegremente.
‘Será uma anacronia continuar a chamar-lhe de meu marido, agora que não sou mais que uma mera viúva?’ – Neste momento a página que escrevia tornou-se como um corpo humano, inundado de água e repleto de vida.