Está um conjunto de pessoas reunido em frente à casa mortuária. A noticia foi recebida à relativamente pouco tempo, mas como se diz as más correm sempre depressa.
Estou mais afastado a um canto, não sinto o vento, não oiço o murmurar, não sinto as lágrimas que me correm pelo rosto... Será que existem?
Naturalmente este é o momento que todos receamos, aquele de que nos tentamos afastar o máximo possível, mas aquele que é o mais certo desde o momento que vimos ao mundo.
Observo um conjunto de pessoas mais à minha frente e no meio de todas aquelas palavras mal proferidas, ou muito provavelmente proferidas na perfeição e o problema sou realmente eu, que não oiço, que já nem sinto, que já nem falo, revela-se o único conjunto de palavras ao qual estou apto de ouvir:
'- Mas e então tudo bem?'
Continuo em frente à casa mortuária ou terei finalmente acordado do pesadelo? É que enquanto eu me encontro aqui a velar o corpo de uma das pessoas que me eram mais importantes um grupo de pessoas interrogasse, para além das banalidades, de como está o tempo, de como está o mundo e de como eles próprios estão. Eu não estou bem, e penso que se alguém estivesse o local onde estariam reunidos não seria este com toda a certeza.
Será educação, será egoísmo ou somente ironia?
Sinceramente só me restará a duvida, e quando à pouco pensava que este momento era o mais certo em toda a nossa vida, agora reflito e chego à conclusão que é também o que mais gera incógnita.
Não o queria dizer ou sequer pensar, com um medo exorbitante de que se tornasse real, ou pelo menos mais ainda, mas acabo por deitar cá para fora:
- Ainda agora foste e já sinto a tua falta.
Irei amar-te eternamente, Avô. - E ai chorei, e senti realmente o choro. Todo o mundo desabou. Realmente tinha razão, tornou-se real, e completamente irreversível.
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